10 setembro, 2014

ESTUDOS DE LUZ: INDÍCIOS, REFLEXOS E SOMBRAS NA COLEÇÃO DE SERRALVES

Visitada a exposição itinerante da Fundação de Serralves, na Quinta da Cruz, em Viseu, denominada de Estudos de Luz: Indícios, Reflexos e Sombras na Coleção de Serralves, alguns pontos fulcrais foram desenvolvidos como mote para o início do que se espera ser um desenvolvimento assíduo e estruturado das possibilidades que a Luz (no seu sentido mais abrangente) nos oferece.



O espaço


O espaço Quinta da Cruz é uma conquista recente do Município de Viseu. O edifício e o seu envolvente, que outrora seriam de propriedade privada é, agora, um espaço público dedicado às artes e à sua exposição, tendo um aproveitamento útil realmente motivante, após um minucioso restauro. Com salas amplas e bem divididas e espaços comuns agradáveis (arquitetónicos e naturais), alberga a exposição acima citada, bem como outras de interesse geral.
Num ponto de vista restrito, aliado exclusivamente a “Estudos de Luz”, crê-se que a luminosidade do espaço é um pequeno entrave a algumas secções da exposição que, de forma pessoal, mereceriam um cuidado maior no que toca a sua envolvência. Esta luminosidade leva a que a perceção de alguns elementos fique comprometida dadas as características dos mesmos (espelhados, envidraçados, telas pintadas, etc.). No entanto, noutros objetos, a luminosidade exterior toma um papel preponderante, sendo a sua fonte principal de projeção no espaço que as envolve.
Contudo, crê-se que o espaço é dotado de um enorme potencial e, acima de tudo, de um enorme cariz híbrido, podendo albergar variados contextos artísticos.



Obras principais


No que diz respeito a “Bring us Light”, uma das obras que mais se destaca nesta exposição é Loom (1960), de Ana Hatherly.
A obra consiste numa estrutura acrílica, com três paralelepípedos concêntricos que se definem como três camadas coloridas, simulando - de acordo com a descrição no catálogo da exposição - o” lume de uma vela que arde, desde o fogo no pavio (paralelepípedo anterior) ao próprio ar em combustão (paralelepípedo posterior)”, ou seja, as cores referentes à chama do fogo, desde a sua cor mais quente até à sua cor mais fria (que coloca também em discussão a questão da temperatura da cor e da sua correspondência à temperatura física que lhe é referente), até atingir o ar que o circunda.
Mais relevante ainda é a potencialidade de que o objeto se nutre no que toca à sua ação no espaço que o envolve, senão vejamos:
O objeto tem no seu corpo três cores, como podemos ver pela imagem. Incidindo luz no mesmo, que será projetada no espaço envolvente (paredes, superfícies rugosas, outras superfícies translúcidas ou opacas, entre outros), podemos atingir resultados bastante interessantes. Podemos ver, na imagem Loom (2), um exemplo do que se fala. Adicionando uma incidência luminosa projetada numa superfície posterior ao objeto, atingimos efeitos e variações, quer cromáticas, quer de sobreposição e mistura com um forte interesse visual. Mais ainda, se adicionar-mos a este projeção (ou até mesmo ao objeto) fatores de velocidade, proximidade, variação cromática e de temperatura de cor.
Imaginando a adição de outros fatores como, por exemplo, ampliadores luminosos, refratores e estando ainda condicionado a fatores externos sobre os quais não possamos ter controlo (como acontece no espaço da exposição), gera-se um leque de possibilidades extremamente largo no que toca a aplicação de variações.
 

Loom (1)
Loom (2)
                     








Uma outra obra relevante no que toca a investigação em curso é Study For a 16mm Film (2011) de Charlotte Moth.
A obra consiste num vídeo reproduzido em loop no qual Moth coloca o registo de “transformações de formas visuais através do movimento e da iluminação, criando uma “sinfonia visual””.
Esta obra legitima questões abordadas na obra anterior, de Ana Hatherly. A utilização do movimento e de velocidade, de diferentes materiais, de diferentes variações de luz e cor da mesma, são elementos mais do que concretos para atingir variados objetivos visuais na obra da artista. Moth utiliza vários tipos de materiais e tira partido do poder de refração de outros que se assumem menos prováveis em termos de utilização (tampos de mesa, cortinados, entre outros).
Com uma abordagem muito vincada pelo seu teor experimental, Moth “recorda as fantasias modernistas de cores puras e formas sinuosas”.
Podemos ver parte da peça no vídeo disponibilizado abaixo.







As restantes obras têm um valor conceptual bastante forte, mas acredita-se que nos termos da pertinência para o projeto a ser desenvolvido, não se assemelham às acima analisadas.
Contudo, é importante referenciar brevemente um par de obras que tomam algum valor relativo, como é o caso de:

Planeta (2001) de Grazia Toderi - consta de um vídeo em modo loop que apresenta um planetário visitado por um grupo de crianças vestidas de acordo com cânones relacionados com 2001: Odisseia no Espaço de Stanley Kubrick. Existe, nesta peça, uma correlação muito grande entre o espaço retratado e o espaço no qual ele está a ser projetado, devido, também, à sua envolvente sonora que vai ampliando a sua intensidade ao longo do decorrer do loop.


Planeta



Light in Its full Force (1975-76) de Jorge Martins - pode-se ler na obra o seguinte: “Light in its full force appears purely white and it gives this impression also in its highest degree of dazzling splendour”. Esta fase pertence a Goethe T. C. .


Light in its full Force




Pequena luz III (1995) de Rui Chafes - Esta obra toma a semelhança a alguns objetos de tortura e aprisionamento do corpo, datados de finais do sec XX.
Segundo o catálogo da exposição, “As suas esculturas são muitas vezes expostas de forma a não tocarem o chão, frequentemente suspensas ou adossadas à parede. É o caso de Pequena luz III, em que sombra projetada e peça propriamente dita têm exatamente a mesma importância.”. De facto, a última frase desta transcrição é o ponto fulcral da descrição da obra, no ponto de vista pessoal. A obra tem associada a si uma presença fortíssima, sublinhada pela sombra que projeta na parede onde está colocada que assume ainda mais potencial, devido a que poderá ser manipulada ou mesmo modificada a partir do momento em que a incidência de luz na obra é também variada, gerando assim um leque enorme de possibilidades inerentes.



Pequena Luz III (1)
Pequena Luz III (2)

  







Conclusão



A visita a esta exposição Itinerante de Serralves gerou um excelente desenvolvimento no que toca quer a legitimidade do tema, quer a sua continuidade relativamente a investigação. É, de facto, um tema fascinante, cativante do ponto de vista conceptual e ainda mais, do ponto de vista do desenvolvimento pessoal e do conhecimento visual.
Algumas das obras associaram-se, desde já, ao Estado de Arte que constará do corpo da investigação, sendo, neste caso, dos primeiros casos práticos a serem desenvolvidos para o mesmo.
Acredita-se, assim, que a investigação se balizará em termos experimentais numa fase inicial, abordando as diferentes possibilidades inerentes ao tema, que posteriormente culminarão numa aplicação específica, colocando o Design ao serviço de alguma concreta necessidade.




Let there be light.




(versão traduzida para Inglês em breve)



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